Déficits nas contas do governo persistem de 2023 a 2026, pressionam a dívida pública e expõem a distância entre a meta fiscal e o resultado efetivo.
terça-feira, 21 de julho, 2026 | 22:12 | Última atualização em: 21 de julho, 2026 às 22:12

Os déficits nas contas do governo atravessam todo o período de 2023 a 2025, e o mercado prevê mais um resultado negativo em 2026. O Governo Central registrou rombo primário de R$ 228,5 bilhões em 2023, R$ 42,9 bilhões em 2024 e R$ 61,7 bilhões em 2025. Para 2026, a mediana das projeções aponta déficit de R$ 58,1 bilhões, mantendo as contas federais no vermelho pelo quarto ano.
Os valores comparam receitas e despesas antes dos juros da dívida e seguem a metodologia “acima da linha” do Tesouro Nacional. Essa distinção importa: o resultado primário mostra o esforço fiscal corrente, enquanto o resultado nominal incorpora a pesada conta de juros. Também é diferente do número usado formalmente para verificar a meta, que pode retirar despesas autorizadas pelo Congresso.
A série mostra redução do rombo em 2024, seguida por nova piora em 2025. A projeção de 2026 indica um déficit ligeiramente menor em termos nominais, mas mantém a necessidade de financiamento do governo. Como os valores não estão corrigidos pela inflação, a comparação em reais deve ser lida junto com a proporção do PIB e as mudanças de perímetro.
| Ano | Resultado efetivo | % do PIB | Situação |
|---|---|---|---|
| 2023 | −R$ 228,5 bi | −2,1% | Realizado |
| 2024 | −R$ 42,9 bi | −0,4% | Realizado |
| 2025 | −R$ 61,7 bi | −0,5% | Realizado |
| 2026 | −R$ 58,1 bi | cerca de −0,4% | Previsão de mercado |
Fontes: Resultado do Tesouro Nacional, SPE/Prisma Fiscal de julho de 2026 e projeção fiscal do Tesouro. O percentual de 2026 é uma referência do cenário oficial, não o cálculo implícito da mediana nominal do Prisma.
O resultado de 2023 refletiu a combinação de expansão de gastos, desaceleração de receitas e pagamentos extraordinários. A quitação de precatórios represados respondeu por cerca de R$ 92 bilhões no fim daquele ano. O caráter excepcional dessa despesa explica parte do salto, mas não elimina o déficit efetivamente financiado pelo Tesouro.
A base elevada ajuda a explicar a queda de 81% no déficit efetivo no ano seguinte. O percentual isolado pode criar uma leitura otimista demais: 2024 também terminou no vermelho. A Previdência continuou deficitária, enquanto o Tesouro e o Banco Central geraram saldo positivo para cobrir apenas parte dessa diferença.
Em 2024, a receita líquida alcançou R$ 2,162 trilhões e a despesa total ficou em R$ 2,205 trilhões. A arrecadação administrada pela Receita Federal avançou 12,5% acima da inflação, apoiada pela atividade econômica e por medidas de recomposição tributária. Mesmo com essa alta real das receitas, os déficits nas contas do governo continuaram: o rombo efetivo foi de R$ 43 bilhões.
Para verificar a meta fiscal, o Tesouro excluiu R$ 32 bilhões, principalmente créditos extraordinários destinados ao Rio Grande do Sul após as enchentes. O número ajustado caiu a R$ 11 bilhões, ou 0,09% do PIB, dentro da tolerância legal. Isso permitiu o cumprimento formal da meta, embora o caixa público tenha encerrado o ano com R$ 43 bilhões negativos.
O Governo Central encerrou 2025 com receita líquida de R$ 2,333 trilhões e despesa de R$ 2,394 trilhões. A diferença produziu déficit efetivo de R$ 61,7 bilhões, equivalente a 0,5% do PIB. O Tesouro e o Banco Central tiveram superávit conjunto de R$ 255,5 bilhões, incapaz de cobrir o déficit previdenciário de R$ 317,2 bilhões.
Na apuração da meta, exclusões reduziram o saldo negativo para perto de R$ 13 bilhões. Entraram nesse ajuste gastos fora do limite fiscal, conforme autorizações legais. A recorrência dessas diferenças exige cautela: cumprir a meta anual não equivale necessariamente a estabilizar a dívida, porque o caixa efetivo continua financiando todas as despesas.
A decomposição esclarece onde está a pressão persistente. Entre 2024 e 2025, a arrecadação líquida da Previdência cresceu, favorecida pelo mercado de trabalho, mas os benefícios avançaram mais e superaram R$ 1 trilhão. O envelhecimento da população e a indexação de parte dos pagamentos ao salário mínimo mantêm essa conta no centro do debate fiscal.
Do lado do Tesouro, receitas tributárias, concessões, dividendos e pagamentos atípicos podem alterar bastante o fechamento anual. Medidas temporárias ajudam a cumprir um exercício, porém não asseguram melhora contínua. Para o investidor, receitas recorrentes e controle do crescimento das despesas carregam mais informação sobre a solvência futura do que entradas extraordinárias de caixa.
A LDO de 2026 estabeleceu meta de superávit primário de 0,25% do PIB para o setor público consolidado. Para o Governo Central, o valor nominal de referência ficou praticamente zerado devido à contribuição esperada de estados, municípios e estatais. A execução, contudo, permite descontar precatórios e outras exceções previstas em lei.
| Referência para 2026 | Saldo | O que representa |
|---|---|---|
| Meta do setor público | +0,25% do PIB | Objetivo da LDO |
| Prisma Fiscal | −R$ 58,1 bi | Mediana do mercado em julho |
| Tesouro, resultado efetivo | −0,4% do PIB | Cenário de referência, com todas as despesas |
| Dívida bruta | 83,0% do PIB | Mediana do Prisma para dezembro |
A mediana do Prisma melhorou de R$ 59 bilhões negativos em junho para R$ 58,1 bilhões em julho. Mesmo assim, permanece distante do objetivo legal. Já o primeiro relatório orçamentário do ano projetou déficit efetivo de R$ 59,8 bilhões, reforçando a dimensão do desafio.
O resultado primário não inclui juros. Em maio de 2026, essa despesa acumulava R$ 1,111 trilhão em 12 meses para o setor público, segundo o Banco Central. Somada ao déficit primário, ela levou o resultado nominal a R$ 1,260 trilhão negativo, ou 9,62% do PIB.
Esse é o principal canal entre os déficits nas contas do governo e os mercados. Se investidores exigem prêmio maior para financiar a dívida, as taxas dos títulos públicos sobem. O movimento influencia crédito bancário, custo de capital das empresas, câmbio e avaliação de ações, sobretudo nos setores sensíveis à atividade doméstica.
A dívida bruta chegou a 81,1% do PIB em maio de 2026, e o Prisma projeta 83% no encerramento do ano. Juros elevados aumentam o estoque mais rapidamente, enquanto crescimento econômico e superávits primários atuam na direção contrária. Por isso, déficits pequenos podem ser insuficientes para estabilizar a relação entre dívida e PIB.
A dinâmica depende também da diferença entre a taxa de juros real e o crescimento da economia. Quando o custo real da dívida supera a expansão do PIB, o governo precisa produzir resultado primário mais forte apenas para impedir que o endividamento aumente proporcionalmente. Esse mecanismo explica por que a melhora frente a 2023 ainda não encerrou a preocupação fiscal.
Uma trajetória fiscal previsível tende a aliviar a curva de juros e favorecer empresas endividadas, varejistas, construtoras e companhias de infraestrutura. Frustração de receitas ou novas despesas fora do planejamento pode produzir o efeito oposto. O leitor pode acompanhar análises sobre esses canais no Radar Bolsa.
A arrecadação federal, o ritmo dos benefícios previdenciários e a execução de precatórios decidirão quanto da previsão se confirmará. O calendário também distorce comparações mensais: em 2026, parte relevante dos precatórios foi paga em março, enquanto em 2025 ocorreu em junho. Avaliar apenas um mês pode gerar uma conclusão enganosa.
Os relatórios bimestrais de receitas e despesas mostrarão se os déficits nas contas do governo estão convergindo para o cenário esperado. Revisões do Prisma e dados mensais do Tesouro permitirão distinguir uma oscilação de calendário de uma mudança duradoura na trajetória.
Os déficits nas contas do governo diminuíram em relação ao pico de 2023, mas continuaram em 2024, cresceram em 2025 e devem persistir em 2026. O ponto decisivo será aproximar o resultado efetivo da meta sem depender de receitas extraordinárias, exclusões legais ou novas fontes temporárias de arrecadação.
Foram consultados o Resultado do Tesouro Nacional, a atualização de julho do Prisma Fiscal, a oitava edição do Relatório de Projeções Fiscais do Tesouro e as estatísticas fiscais do Banco Central.
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